Ela acha que fui eu.

Fui dar uma volta com a C. a pé. Quando chego à porta do prédio, deparo-me com uma jovem, vestida de empregada de limpeza, com o logo do condominio. Não olha para mim. Digo “Boa tarde!”, devolve-me com um AIIII, que nos assustou de tal forma que quase deixava cair a criança ao chão.
Faz-me cara feia. Tão feia e má que quase lhe pedi desculpas por a ter cumprimentado e de lhe ter interrompido o momento musical nos headphones.
(Mas agora visto à distância, foi tudo parte do plano de intimidação inicial.)
Ao ver que estava a entrar no elevador, vem a correr atrás de mim (juro que achei que me ia assaltar) e grita: “Senhora senhora, já viu como andam os elevadores?”
Eu: Desculpe?
A Ex-espiã soviética: Sim, todos sujos. Cada vez mais sujos.
Eu: Ah? Não tenho reparado em nada fora do normal.
A Ex-espiã soviética: Ai não? (quase com a testa colada à minha)
Eu: (a pensar, bem, vai-me raptar a criança) Não mesmo, desculpe lá.
A futura-espiã soviética: Até manteiga assim toda espalhada (a fazer gestos com o pulso em riste) e baton assim todo lambido (juro que ela disse esta palavra) eu limpei hoje!
Eu: (incrédula de todo) Olhe, deve-se ter engano no prédio porque eu nunca vi tal coisa (e quase que lhe entalo a narigueta a fechar as portas do elevador).
A presidente dos serviços secretos russos: (furiosa por lhe ter virado as costas grita) Ahh pois é, mas agora que eles vieram instalar cá umas câmaras ocultas nos elevadores, vamos descobrir quem é e vai ter de pagar mais! (O que ela queria dizer: vou-te apanhar)
Eu juro que não fui eu. Mas pelo sim pelo não, nunca mais saio de casa durante o dia.
M.